“a Arquitetura é a expressão espacial de uma decisão intelectual”
Paulo Pimenta é sócio-gerente da empresa Paulo Peixoto Pimenta, Arquitetura e Urbanismo, SU, Lda., e paralelamente acumula o cargo de Vice-Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da ACIAB. Enquanto arquiteto define-se como metódico, exigente e coerente e as suas referências são tão vastas como a sua boa disposição, e vão desde Mies Van Der Rohe a Adolf Loos e le Corbusier. Tivemos a oportunidade de o ouvir durante uma conversa afável e objetiva onde nos deu a conhecer o seu estilo minimalista. Dono de uma genuinidade e simplicidade únicas confidenciou-nos ainda que para ele “todos os projetos são uma provocação”.
Há quantos anos é Arquiteto? Conte-nos um pouco do seu percurso profissional e como nasceu essa paixão.
Há 12 anos. Licenciei-me pela Universidade Lusíada do Porto em 1997. Colaborava, na altura, num atelier de amigos em Guimarães, contudo, começaram a surgir alguns convites e optei por me estabelecer em finais desse ano, inicialmente como profissional liberal, e em 2000 fundei a empresa Paulo Peixoto Pimenta, Arquitetura e Urbanismo, SU, Lda., na Praça D. Manuel I, em Arcos de Valdevez. Esta paixão surgiu quando tinha 3 ou 4 anos. O meu pai andava a tirar um curso por correspondência de Desenho de Construção Civil e eu adorava “ajudá-lo”, foi a minha primeira colaboração e infelizmente não correu bem. A Arquitetura sempre foi o meu sonho. O desenho fascinava-me. No ensino secundário frequentei o curso de Artes Plásticas e no início do curso superior ainda tive formação em Design Industrial.
Que balanço faz destes anos?
Como técnico julgo que não sou a pessoa indicada para responder. Compete aos clientes e a quem conhece o nosso trabalho avaliar-nos, contudo, acho que foi uma aposta ganha. A aceitação e a procura do nosso trabalho revelam as condições que esta região oferece para o sucesso: acessibilidades, qualidade de vida e potencial de crescimento.
O que é para si um bom desenho arquitetónico?
Um desenho racional, objetivo, funcional, intencional e rigoroso. Algo que respeite a integração paisagística (urbana e rural), associada à harmonização micro climática, à redução do consumo de recursos não renováveis, ao equilíbrio e vitalização da densificação urbana, à disponibilização e controlo da luz natural e da insolação no interior dos edifícios, à disponibilização de uma eficaz solução de isolamento térmico e de ventilação natural e disponibilização de um leque de materiais, acabamentos e instalações amigos da saúde humana e do ambiente.
Que época histórica da arquitetura mais o fascina?
Todas as épocas têm o seu valor, sem exceção, contudo, o Período Moderno alicerçado à Revolução Industrial do séc. XIX permitiu a introdução de novos materiais e sistemas construtivos. O betão e o ferro vieram revolucionar a Arquitetura. A Arquitetura é a expressão espacial de uma decisão intelectual.
Qual é o estilo que confere aos seus projetos, se é que considera ter um estilo?
Defendo o Minimalismo. A simplicidade da construção é muito mais uma opção que uma limitação. Julgo que numa época saturada de imagens, formas e sons, reduzir, depurar, filtrar acabam por ser os gestos mais eloquentes. Quando a ausência pode ser a forma mais rotunda de presença deixar de fazer algo pode converter-se num gesto afirmativo. Incluso, em determinadas ocasiões, já não se trata de subtrair, mas de não adicionar.
Acha que o meio onde o arquiteto se insere influencia o seu estilo, ou criar é muito mais abrangente do que isso?
O respeito pelo legado arquitetónico, paisagístico, social e cultural tem de ter uma perspetiva de consistência e de durabilidade o mais completa possível, que vá do espaço urbano ao vivencial. A Arquitetura não está vinculada ao momento corrente nem à eternidade mas está ancorada ao seu tempo. Somente pode ser autêntica ao expressar a sua época.
Quando um arquiteto projeta algo, há sempre uma mensagem, uma intenção, por muito subtil que seja, ou chega a um ponto em que é um automatismo?
Cada caso é um caso. Projetar é um ato criativo. Quando se entra em processos, em automatismos, entra-se em industrialização.
Acha que a arquitetura é um símbolo de poder?
Não. É um símbolo de racionalidade.
Como imagina os edifícios, em geral, daqui a 50 anos? O que pensa que mudará?
Absolutamente autossustentáveis. Mas atenção, é necessário ter presente que há milhares de anos já se praticavam estes objetivos de bem-viver a construção, de uma forma mais elaborada e conseguida, mas num equilíbrio de meios e de necessidades extremamente significativo se considerarmos o que era possível fazer em cada época. E é realmente impressionante e muito útil termos a consciência do elaborado conforto de uma grande casa romana e da forma como ela tão bem dialogava com o clima, com a paisagem, com os recursos naturais – da água à argila – e, naturalmente, com a vida e o carácter que envolvia essa mesma vida.
Considera que ainda existe alguma rivalidade entre o papel do arquiteto e do engenheiro?
Rivalidade não. Cada um só deverá trabalhar na sua área de competência. O trabalho multidisciplinar é sinónimo de qualidade. Ao Arquiteto compete criar e coordenar a obra. Ao Engenheiro compete dar a solução técnica. Cada vez mais, um precisa do outro, são áreas que se complementam.
Como vê o futuro dos arquitetos e da profissão?
A melhorar e em Portugal, finalmente, com melhores expectativas. Atualmente 90% dos projetos de arquitetura não são realizados por arquitetos. Com a revogação do Decreto-lei n.º 73/73, que sucedeu a dias, este cenário irá com certeza alterar. A qualidade e exigência dos trabalhos será cada vez mais superior.
Qual o projeto que lhe deu mais gozo desenvolver até hoje?
Todos os projetos são uma provocação. Cada dono-de-obra, cada programa e cada local são um novo desafio criativo. Não posso ficar indiferente a qualquer um. A dedicação é total, mas independentemente do grau de exigência de cada um o “meu” projeto de aposta neste território, pelas condições que me criaram, que vou criando e desejo continuar a criar, foi o que mais gozo me deu.
Um projeto que fosse o seu sonho projetar?
Um território melhor.
Entrevista realizada em junho de 2009